“Biologismo gonzo”

Quem me deu a idéia de fazer isso foi o Ângelo Franchini. O que você ler neste texto, pode ser verdade ou não, e pode ter acontecido ou não também. (mas se tiver uma merda, pode falar, é a primeira vez que faço algo do tipo).

Esse texto tem notas de rodapé, mas não sei como usar direito essa plataforma do WordPress, então quando ver um numerinho sobrescrito, por favor vá até a lista de notas no fim do texto (são só 8, mas tem comentários sarcásticos).

Náufrago

Algumas situações cotidianas, são perfeitamente análogas ao evento de um humano perdido sozinho numa ilha deserta após um trauma.

Uma das espécies de ave nativa da Ordem Columbiformes (pombos e afins) mais comuns em algumas regiões das Américas Central e do Sul é Columbina talpacoti (Temminck, 1810). Chamada comumente de “rola”, “rolinha”, “pomba-rola”, “rolinha-roxa”, “rolinha-caldo-de-feijão” e o cacete1.

Com pequeno porte e cauda curta pesando em média 45g, vive em casais ou numerosos grupos nas ruas de grandes cidades brasileiras. Sua alimentação originalmente onívora2 e adaptação à vida em ambientes abertos, permitiu a vantagem de ocupar o ambiente urbano, coisa que Columbiformes estritamente florestais nunca conseguiram, por exemplo.

O que interessa é: você já viu uma rola! [inserir aqui piada sobre órgão sexual copulador masculino de Homo sapiens Linnaeus, 1758]

Um dos maiores predadores de Columbina talpacoti é o gavião-carijó – Rupornis magnirostris (Gmelin, 1788). Da família Accipitridae (gaviões, águias e abutres do Velho Mundo), é um animal de médio porte com 30-40cm de comprimento e 250-300g de massa, que sorrateiro ataca um macho de Columbina num voo predatório, quando este descansava à sombra num pequeno galho no topo de um Flamboyant – Delonix regia (Hook.) Raf., espécie de planta exótica originária de Madagascar, muito utilizada em paisagismo urbano.

De alguma forma a possível presa consegue escapar, adentrando por uma fresta de janela um apartamento onde o dono havia saído o final de semana. Columbina talpacoti macho3 é agora um náufrago.

O primeiro grande obstáculo enfrentado pelo animal no novo e desconhecido ambiente, é a quase total impossibilidade de alçar voo dentro de pequenos recintos fechados. As primeiras tentativas de locomoção foram feitas desta forma, resultando em colisões com o teto, estantes, e um estranho campo de força invisível impossibilitando o náufrago de voltar a seu Flamboyant, apesar de poder enxergá-lo a oito metros de distância através desse estranho material.

Depois de muitas tentativas frustradas, o cansaço4 e a diminuição da adrenalina na corrente sanguínea fazem com que o mais sensato modo de locomoção seja preferido: a locomoção terrestre, bastante utilizada por Columbiformes durante o forrageamento.

Não entendeu a última frase? Pare de ler agora e vai dar milho aos pombos.

Após algumas horas, nosso náufrago tem despertado seu espírito explorador e realiza incursões a esmo no novo ambiente, já dominando a locomoção, com caminhadas longas no chão e vôos curtos para alcançar móveis em posições mais altas, sempre cagando em tudo quanto é canto, o que pombos fazem de melhor é cagar!

Assim que atinge a cozinha encontra migalhas de macarrão instantâneo pelo chão e em cima do fogão, indicando que o morador do apartamento é sozinho.

Com a comida garantida, nosso columbiforme perdido sai em busca de abrigo, adentra o banheiro da suíte e encontra um canto protegido com temperatura mais amena, e cai no sono. Sonhando com o Flamboyant, acorda assustado e instintivamente tenta um voo desesperado, mas encontra-se preso atrás da porta aberta do box, rodeado de campos de força e durante 28 horas fica se debatendo, e cagando5, no local.

Retornando do final de semana, o dono do apartamento6 decide tomar um banho relaxante.

O embate é furioso!

Igualmente assustados com a presença um do outro, a rola se debate e caga num lampejo de coragem, desespero e merda, enquanto o Homo sapiens lança gritos agonísticos7 em sequência de 3 a 4 repetições.

Como já discutido acima, o voo não é a melhor maneira de se locomover em pequenos locais fechados, e em menos de 30 horas, nossa presa é atacada por um novo predador, mas desta vez é facilmente capturada pelas mãos do dono da toca.

Mas dono da toca tem especial apreço por aves. É um estudioso da anatomia aviana.

E um dilema toma a cabeça do ornitólogo que só queria um banho: “mato ou não mato esse bicho”8.

O humano olha o columbídeo nos olhos, vai até a varanda e solta o náufrago em direção à fabácea africana de flores vermelhas, mesma cor de sua íris.


  1. nomes populares são vastos e interessantíssimos – obviamente um carioca não chamaria esse bicho de “caldo de feijão”, por causa do feijão-preto comumente apreciado no Rio de Janeiro.
  2. qualquer merda.
  3. sexo facilmente identificável pelo acentuado dimorfismo sexual de plumagem na espécie, machos possuindo coloração marrom-terrosa bastante vistosa e cabeça acinzentada, enquanto fêmeas são marrom-claro uniforme.
  4. os maiores pacotes musculares presentes em aves voadoras (m. pectoralis major e m. supracoracoideus) são utilizados no voo batido.
  5. pombo é muito besta – Dodôs eram Columbiformes da família Raphidae, hoje todas as espécies estão extintas.
  6. espécime de Homo sapiens na idade sexualmente ativa apesar de não praticar muito ultimamente.
  7. “filho-da-puta”.
  8. um exemplar de Columbina talpacoti seria de grande valia a uma coleção científica, pois apesar de comum, são poucos os esqueletos disponíveis.

Zoologia é foda.

ps. não sei botar nota de rodapé no wordpress….no editor de texto (fora daqui) ficou bonitinho. quem souber me da um toque!

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Sobre Guilherme Brito

Zoólogo paulistano, atualmente mora do Rio de Janeiro onde faz pós-doutorado com relações filogenéticas de Ardeidae (garças) baseado em caracteres osteológicos no Setor de Ornitologia do Museu Nacional da UFRJ. Amante extremo de anatomia de aves e toda e qualquer curiosidade zoológica.

Publicado em 9 de fevereiro de 2015, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. 5 Comentários.

  1. A mais parcimoniosa das opções é que isso ocorreu com o senhor.
    Agora, fica a questão: Se seria de grande valia para a coleção científica, por quê que o senhor não fez a coleta da tal rola, que já estava nas suas mãos?

  2. Angela Maria Renzo Rocha Brito

    Sou suspeita?!?!? Claro…, mas não me importo, adorei. Parabéns! Bj

  3. Senhor Bart, Você continua um escritor do grande caralho. Não desista, seja mais frequente, invente, crie… Abraço tio Zé

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