Arquivo do autor:Guilherme Brito

Pfeilstorch

Achou que tinha escapado!

Achou que tinha escapado!

Imagine-se agora num pantanal em algum lugar da planície centro-africana nos idos de 1822, e você é uma cegonha. Sim! Um lindo exemplar de “cegonha-branca”, ou Ciconia ciconia (Linnaeus, 1758), mas hoje você não vai carregar bebês.

Vai andar pelos campos gramados, pântanos rasos e áreas rurais em busca de comida. Essencialmente carnívora come “tudo o que se mexe e cabe no bico”. Insetos, crustáceos, peixes, anfíbios, repteis, pequenos mamíferos e aves. Você é um bicho que come pra cacete!! Come muito e quando tá com calor fica cagando nas próprias pernas, pois com a pele muito fina, aves não possuem glândulas sudoríparas[1].

Tem um motivo de comer muito, mas não é aquele amor perdido que causa isso. Ciconia ciconia possui conhecidos e longos movimentos migratórios, é final de fevereiro e amanhã você vai começar voltar pra Europa pois lá finalmente irá dar uma transadinha. Cegonhas-brancas demoram cerca de 49 dias para chegar, é muita vontade de ter filho!!

Mas nem sempre foi assim, durante muito tempo humanos não tinham a mínima ideia do que acontecia com animais que desapareciam periodicamente, eram conhecidos os períodos com precisão, mas nada mais que isso.

De volta ao brejo africano, você identifica um muçum, peixe Synbranchiforme de corpo alongado e anguiliforme[2]; um secretor de muco, com abertura branquial reduzida, cor escura e delicioso! Você se farta hipnotizado com tão rico alimento que nem percebe o guerreiro de uma tribo africana[3] a espreita com uma lança.

Quando você o vê, se assusta, alça vôo e passa a meia altura bem devagar por cima dele[4]. O lançamento é perfeito com a lança atingindo-lhe o pescoço e milagrosamente passando entre o espaço coluna vertebral/traqueia+esôfago[5], causando danos importantes, mas não fatais ou muito limitadores de movimentos. Com isso você continua voando, caga de medo na cabeça do fdp do guerreiro e resolve partir na mesma hora para a Europa.

Uma viagem que demoraria em média 49 dias para ser feita por uma cegonha-branca saudável e bem alimentada, deve demorar mais pra uma com uma porra de uma lança encravada no pescoço! O cansaço é inevitável, então paradas periódicas são bem vindas.

Mas você é uma cegonha-branca-mano (yo!)! Sim, você é um cara da perifa, oprimido pela sociedade das cegonhas e forçado a nidificar no limite norte da distribuição da espécie. E demora pra chegar em casa! Uma das paradas é o simpático vilarejo de Klütz no estado de Mecklemburg-Vorpommern na Alemanha aos vinte e um dias do mês de maio de 1822.

Sendo um cara esperto (yo!), não fica muito perto do vilarejo, pois humanos são meio malucos. Fica perto de um lago afastado, onde um naturalista alemão adorava dar seus passeios vespertinos.

Qual seria a ação tomada pelo nosso naturalista alemão ao observar uma cegonha com uma lança enfiada na garganta?

1.) Grito agonístico[6].

2.) Empunhando sua cartucheira calibre 12, carregada com cartucho com chumbo 3 (cegonha é grande), mira e também é certeiro, mas agora você não escapa.

Ao chegar perto do espécime recém-abatido, nosso naturalista, com profundos conhecimentos de antropologia identifica a flecha como sendo de uma tribo Centro-Africana. Sua cabeça explode por um momento.

Aristóteles achava que quando as cegonhas sumiam no inverno, estariam hibernando em algum lugar junto com todas as outras aves que sumiam também! Provavelmente no fundo do mar.[7]

Será que este bicho vai até a África durante o inverno pois lá o tempo é gostosinho e não congelante, e daí elas voltam pra se reproduzir?

Pláu[8]!

Zoologia é foda.

ps1.: desde essa primeira existem mais 25 casos de cegonhas flechadas ou Pfeilstorch em museus europeus.

ps2.: esta encontra-se na Universidade de Rostock.

ps3.: hoje é sabido que certas Ciconia ciconia fazem viagens de 20.000Km ida e volta e se juntam em bandos que possuem até 100Km de distância.

[1] cagando+mijando (aves soltam junto): com as pernas molhadas, o sol evapora o líquido do coco e o bicho dá uma esfriada.

[2] forma de enguia

[3] não encontrei a etnia, caso alguém saiba avise que eu coloco e agradeço!!

[4] parece uma decisão idiota, mas não vamos discutir sobre decisão de um bicho que nem temos idéia do que pensa!! O texto é meu e eu decidi que o bicho ia fazer merda!

[5] todos conectados por um tecido conjuntivo frouxo (fásceas)

[6] Mein Gott!

[7] Sim! É verdade.

[8] onomatopéia de paulada na cabeça

“Biologismo gonzo”

Quem me deu a idéia de fazer isso foi o Ângelo Franchini. O que você ler neste texto, pode ser verdade ou não, e pode ter acontecido ou não também. (mas se tiver uma merda, pode falar, é a primeira vez que faço algo do tipo).

Esse texto tem notas de rodapé, mas não sei como usar direito essa plataforma do WordPress, então quando ver um numerinho sobrescrito, por favor vá até a lista de notas no fim do texto (são só 8, mas tem comentários sarcásticos).

Náufrago

Algumas situações cotidianas, são perfeitamente análogas ao evento de um humano perdido sozinho numa ilha deserta após um trauma.

Uma das espécies de ave nativa da Ordem Columbiformes (pombos e afins) mais comuns em algumas regiões das Américas Central e do Sul é Columbina talpacoti (Temminck, 1810). Chamada comumente de “rola”, “rolinha”, “pomba-rola”, “rolinha-roxa”, “rolinha-caldo-de-feijão” e o cacete1.

Com pequeno porte e cauda curta pesando em média 45g, vive em casais ou numerosos grupos nas ruas de grandes cidades brasileiras. Sua alimentação originalmente onívora2 e adaptação à vida em ambientes abertos, permitiu a vantagem de ocupar o ambiente urbano, coisa que Columbiformes estritamente florestais nunca conseguiram, por exemplo.

O que interessa é: você já viu uma rola! [inserir aqui piada sobre órgão sexual copulador masculino de Homo sapiens Linnaeus, 1758]

Um dos maiores predadores de Columbina talpacoti é o gavião-carijó – Rupornis magnirostris (Gmelin, 1788). Da família Accipitridae (gaviões, águias e abutres do Velho Mundo), é um animal de médio porte com 30-40cm de comprimento e 250-300g de massa, que sorrateiro ataca um macho de Columbina num voo predatório, quando este descansava à sombra num pequeno galho no topo de um Flamboyant – Delonix regia (Hook.) Raf., espécie de planta exótica originária de Madagascar, muito utilizada em paisagismo urbano.

De alguma forma a possível presa consegue escapar, adentrando por uma fresta de janela um apartamento onde o dono havia saído o final de semana. Columbina talpacoti macho3 é agora um náufrago.

O primeiro grande obstáculo enfrentado pelo animal no novo e desconhecido ambiente, é a quase total impossibilidade de alçar voo dentro de pequenos recintos fechados. As primeiras tentativas de locomoção foram feitas desta forma, resultando em colisões com o teto, estantes, e um estranho campo de força invisível impossibilitando o náufrago de voltar a seu Flamboyant, apesar de poder enxergá-lo a oito metros de distância através desse estranho material.

Depois de muitas tentativas frustradas, o cansaço4 e a diminuição da adrenalina na corrente sanguínea fazem com que o mais sensato modo de locomoção seja preferido: a locomoção terrestre, bastante utilizada por Columbiformes durante o forrageamento.

Não entendeu a última frase? Pare de ler agora e vai dar milho aos pombos.

Após algumas horas, nosso náufrago tem despertado seu espírito explorador e realiza incursões a esmo no novo ambiente, já dominando a locomoção, com caminhadas longas no chão e vôos curtos para alcançar móveis em posições mais altas, sempre cagando em tudo quanto é canto, o que pombos fazem de melhor é cagar!

Assim que atinge a cozinha encontra migalhas de macarrão instantâneo pelo chão e em cima do fogão, indicando que o morador do apartamento é sozinho.

Com a comida garantida, nosso columbiforme perdido sai em busca de abrigo, adentra o banheiro da suíte e encontra um canto protegido com temperatura mais amena, e cai no sono. Sonhando com o Flamboyant, acorda assustado e instintivamente tenta um voo desesperado, mas encontra-se preso atrás da porta aberta do box, rodeado de campos de força e durante 28 horas fica se debatendo, e cagando5, no local.

Retornando do final de semana, o dono do apartamento6 decide tomar um banho relaxante.

O embate é furioso!

Igualmente assustados com a presença um do outro, a rola se debate e caga num lampejo de coragem, desespero e merda, enquanto o Homo sapiens lança gritos agonísticos7 em sequência de 3 a 4 repetições.

Como já discutido acima, o voo não é a melhor maneira de se locomover em pequenos locais fechados, e em menos de 30 horas, nossa presa é atacada por um novo predador, mas desta vez é facilmente capturada pelas mãos do dono da toca.

Mas dono da toca tem especial apreço por aves. É um estudioso da anatomia aviana.

E um dilema toma a cabeça do ornitólogo que só queria um banho: “mato ou não mato esse bicho”8.

O humano olha o columbídeo nos olhos, vai até a varanda e solta o náufrago em direção à fabácea africana de flores vermelhas, mesma cor de sua íris.


  1. nomes populares são vastos e interessantíssimos – obviamente um carioca não chamaria esse bicho de “caldo de feijão”, por causa do feijão-preto comumente apreciado no Rio de Janeiro.
  2. qualquer merda.
  3. sexo facilmente identificável pelo acentuado dimorfismo sexual de plumagem na espécie, machos possuindo coloração marrom-terrosa bastante vistosa e cabeça acinzentada, enquanto fêmeas são marrom-claro uniforme.
  4. os maiores pacotes musculares presentes em aves voadoras (m. pectoralis major e m. supracoracoideus) são utilizados no voo batido.
  5. pombo é muito besta – Dodôs eram Columbiformes da família Raphidae, hoje todas as espécies estão extintas.
  6. espécime de Homo sapiens na idade sexualmente ativa apesar de não praticar muito ultimamente.
  7. “filho-da-puta”.
  8. um exemplar de Columbina talpacoti seria de grande valia a uma coleção científica, pois apesar de comum, são poucos os esqueletos disponíveis.

Zoologia é foda.

ps. não sei botar nota de rodapé no wordpress….no editor de texto (fora daqui) ficou bonitinho. quem souber me da um toque!

Curta homenagem

“On taking it out of my net and opening the glorious wings, my heart began to beat violently, the blood rushed to my head, and I felt much more like fainting than I have done when in apprehension of immediate death.
I had a headache the rest of the day, so great was the excitement produced by what will appear to most people a very inadequate cause.”

Alfred Russel Wallace (8 janeiro 1823 – 7 novembro 1913)

Ontem fizeram 100 anos da morte do Wallace, fica aqui minha homenagem. Esse é um dos caras que eu gostaria muito de voltar no tempo e dar uma voltinha junto pelas matas amazônicas. Esta frase é a descrição do que ele sentiu ao coletar, pela primeira vez, uma espécie espetacular de borboleta na Indonésia. Fique tranquilo Sr. Alfred, esse sentimento não é de modo algum oriundo de uma causa não usual, eu te entendo.

Descrever a his…

Descrever a história e a diversidade dos seres vivos, fornecer o conhecimento pelo conhecimento, é enriquecer a humanidade.

Douglas J. Futuyma

Reencontrei esta grande frase durante estudos para um concurso. Tá aí uma ótima dica de resposta quando alguém vem e te faz a recorrente pergunta: “Mas o que você faz da vida hein!?” (super comum para nós querendo viver academicamente). “Ajudo a enriquecer a humanidade” é uma puta de uma resposta, não?

ps.: estou sem tempo pra posts longos, mas já já eles voltam

The surest way …

The surest way to corrupt a youth is to instruct him to hold in higher esteem those who think alike than those who think differently.

Friedrich Wilhelm Nietzsche (15/10/1844—25/08/1900)

Homenagem simultânea ao dia dos professores e ao nascimento do Nietzche, um de meus amiguinhos. Lembrem-se, a ciência anda devido a conflitos e embates saudáveis entre pares.

Cocoricó.

Macho-alfa e uma de suas garotas em floresta no sudeste asiático

AE!

Mais uma vez por obra do acaso, estou aqui escrevendo um novo post.

Mas ele já está pronto….

Recebi hoje um e-mail de uma jornalista de uma revista de divulgação cientifica de grande circulação, para ajudá-la com uma “pergunta de leitor”. É super comum para quem está trabalhando na área acadêmica ter contato com esse pessoal e eu particularmente gosto de colaborar quando posso.

Sempre são coisinhas simples e bem legais de responder, mas hoje foi mais legal. Ela me mandou uma pergunta interessantíssima:

Eu estava a madrugar e eis que ouço um galo cantar próximo às 2h. Gostaria de saber o que poderia levar a esse comportamento, já que ele é uma ave quase sem qualquer tipo de defesa e estaria entregando sua posição a animais caçadores noturnos que o predariam” Leitor misterioso

Eu respondi, mas como tinha estudado isso pra dar uma aula esse semestre numa disciplina aqui da pós-graduação, e tava bem fresco o conhecimento enciclopédico, escrevi demais.

Sei que pra entrar na revista terão que cortar bastante coisa, mas fiquem aí com a resposta na íntegra:

“Antes de responder especificamente sobre o assunto da pergunta, seria interessante sabermos um pouco da história e sobre qual identidade biológica estamos falando ao tratarmos de galos e galinhas. Muitas espécies de Galliformes (ordem de aves onde estão presentes os faisões, galos, galinhas, jacus, jacutingas, urus, codornas, etc) tem grande importância para várias populações humanas, desde culturais (cultos religiosos, esporte, etc) até o óbvio aporte proteico (carne e/ou ovos). E existem basicamente duas maneiras comuns de se obter proteína de Galliformes que são exaustivamente utilizadas por homens no mundo todo: caça ou domesticação. O histórico da domesticação do ancestral do animal que hoje pode ser considerado galo e galinha-domésticos (e todas suas variações) é bastante antigo. Este talvez seja o animal que teve o maior impacto em vários aspectos da vida humana. Existem fortes evidências de que exemplares da espécie Gallus gallus, hoje ainda encontrada em seu estado natural em florestas do sudeste asiático tenham sido domesticadas por povos na Índia antiga (a mais de 3.000 AC), que primeiro buscavam fonte de carne e ovos, mas depois descobriram na agressividade intrínseca de machos da espécie, uma boa fonte de diversão (apesar de extremamente cruel, rinhas de briga-de-galo são especialmente populares na Ásia). Com o advento das grandes navegações (existem relatos de domesticação de galinhas na Europa já em 1500AC), praticamente todos os navios levavam galinhas domésticas nas viagens, dando o impulso final para que este animal fosse utilizado por praticamente todas as civilizações. Com esse breve histórico podemos responder à ótima pergunta do leitor. Como disse anteriormente, esta espécie vive originalmente em matas e alguns outros ambientes no sudeste asiático, e possuem hábitos gregários, ou seja, são encontrados em grupos familiares com alguns indivíduos. Uma coisa essencial para a boa manutenção de grupos familiares nas matas é óbvia: a comunicação entre os pares. A comunicação entre indivíduos de aves é uma disciplina extensa em ornitologia e no caso das vocalizações dos Gallus gallus selvagens no sudeste asiático as manifestações sonoras estão ligadas a defesa territorial, prelúdio ao acasalamento, dominância sobre aves subordinadas, manutenção da coesão do grupo após a alimentação, etc. Geralmente os grupos possuem um macho-alfa que é responsável por praticamente tudo isso, e não é estranho que o mesmo comportamento seja visto nas fazendas e sítios com galinhas. Sempre há um macho dominante que vive reforçando a idéia de que quem manda no local é ele (estufa o peito, bate as asas no lugar só pra fazer barulho, dá uns “chega-pra-lás” em machos jovens subordinados, etc). O canto madrugador é um exemplo desse caráter ancestral ainda expresso nos galos domésticos, geralmente, antes do amanhecer o galo dominante sobe em seu poleiro preferido e grita para outros machos da espécie que o território é dele….e caso alguém invada, vai ter briga, e briga feia. Existe o problema de algum predador aprender a ouvir o canto territorial da espécie e atacar o grupo? Sim, claramente! Mas a natureza é mesmo cruel, e os galos e galinhas evoluíram por milhares de anos até chegar a esse patamar, que deu certo! A espécie está por aí, firme e forte. Devem haver perdas de galos dominantes e/ou outros indivíduos do grupo pela atração do canto? Sim, mas o benefício da manutenção de um grupo familiar coeso e fértil parece valer a pena. E apesar de pensarmos que galos e galinhas possam ser indefesos, a coisa não é bem assim….machos são extremamente agressivos e defenderão o grupo familiar com unhas, bicos e esporões. Pode até ser uma luta injusta com um gato-selvagem de médio porte, mas o galo não se entrega fácil.”

Zoologia é f%ˆ&!! E História também!

Da próxima vez que for ao sítio do seu tio….preste atenção nas galinhas!!!

Foto dos bichos DAQUI

Cocoricó (sim, ainda sou o macho-alfa desse blog)

Salvem os Bernes!

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“Muito mais legal que o Free-Willy!”

Este é o primeiro post da categoria “Escatologia com conteúdo” do meu, do seu, do nosso Curiozoo (homenagem à MTV).

Vamos combinar uma coisa, né?? BERNES são mil vezes mais legais do que baleias!

Estou sumido, mas não vou justificar….a justificativa tá num dos outros 2 textos que já fiz pela metade. #ficaadica

A idéia deste post se deu a uns 15 minutos atrás numa conversinha no twitter, que apesar de ser bem chato algumas vezes, possibilita momentos mágicos! Mágico como discutir sobre moscas que botam ovos em seres humanos e estas se alimentam de sua carne durante a fase larval, numa quinta-feira a noite!

Antes de tudo temos que saber o que é miíase (lembrem-se!!! Sou ornitólogo – não médico, não entomólogo, não cubano – qualquer erro cometido fique a vontade para corrigír). Encontrei uma definição interessante num artigo de um site de uma associação dessas doenças escrotas causadas por larva no Reino Unido (aqui):

” Miíase é definida como uma infestação causada por larvas de representantes da ordem Diptera (moscas verdadeiras; cujos adultos possuem apenas 2 asas) que se alimentam por tempo variado no tecido (morto ou vivo), substâncias corpóreas, ou comida ingerida de humanos e/ou demais vertebrados”. Lindo isso né??

Dentre os vários “tipos” de mosca (uns 36) que infectam o homem, uma é mais conhecida por nós brasileiros – a mosca-do-berne (Dermatobia hominis).

“Ahhhh…eu sei! Aquela mosca-verde nojenta que fica voando perto do saco de lixo na esquina da minha rua, ou no meio da sala da casa do Lama e do Marcão, ou lá na 5Bola! Varejeira, né?”

Não. A mosca-varejeira (Cochilomyia hominivorax) pode causar um tipo de miíase também, colocando ovos em ferimentos abertos, mas não é a mesma da mosca-do-berne.

A mosca-do-berne não é facilmente observada, muito por que não é ela que bota os próprios ovos no hospedeiro. A maldita coloca ovos em outros insetos, geralmente moscas-comuns e mosquitos pois esses são atraídos pelos hospedeiros. Assim que uma mosca pousa em você pra dar um golinho no suco de suor mais sebo de sua pele, ou uma mosquita vem chupar seu sangue precioso, e caso eles tenham ovos de berne, o calor de seu corpo (ui!) aciona um gatilho no ovo que é lançado em sua pele.

Quando ele (o ovo) eclode, o lindo bebezinho entra na sua pele (não sei como ele faz isso especificamente) e a diversão começa! O bonitinho vai se alimentando da sua carne…crescendo, mudando de fase (1, 2 e 3) até chegar o dia!

“Que dia?? A mosca sai voando direto do corpo do hospedeiro? Eca!”

Não. O berne não faz isso…caso alguém seja doido ou desleixado o suficiente (ou caso seja um cachorro de rua, uma vaca, um animal selvagem, etc) chega um dia que a larva sai sozinha do buraco quente, cai ao solo, vira pupa e metamorfoseia em nova mosca adulta.

O mais legal disso tudo é que eu já tive berne, mas obviamente, meu irmão-galâ teve muito antes que eu, com 3 anos de idade…e na cabeça! Eu acho, sinceramente, que este episódio da vida dele tenha sido demais…e pra minha mãe também que ficava afogando a larva com vaselina e tentando puxar a pontinha do tubo respiratório dela com uma pinça de sobrancelha a madrugada inteira enquanto meu irmão dormia! Esses episódios moldaram meu caráter! hahahahaha

Mas apesar de moldar caráter esse primeiro contato com o Berne não foi muito proveitoso…..ok, lembro de ver a larva botando o tubo respiratório pra fora, minha mãe quase pegando ela e meu irmão xingando o médico com os palavrões mais absurdos com 3 anos de idade – parêntese: (Mãe…aquilo nunca funcionaria – já explico!)….mas lembro muito pouca coisa da experiência com o bicho. Lembrem-se: sou nerd.

Lembro de ver a larva que o médico arrancou da cabeça do meu irmão, estrebuchando no vidrinho com líquido de cheiro bom (eu era muito novo e não lembro o q era….mas era algo tipo éter ou álcool), mas só isso. Hoje eu sei que a larva na cabeça dele era de nível 3, igual a da foto acima!

Senti a verdadeira experiência quando começei a ir bastante pro mato fazer trabalhos de campo com ornitologia e conheci uma coisa muito comum a todo biólogo que passa um pouco de tempo no mato…..as relações de ectoparasitismo.

Já peguei berne, carrapatos (vários tipos), pulga de tatu, fungo no olho, etc….acho q vou colocar essas coisas no meu Currículo Lattes!

Voltando ao berne: a ferida começa sussa….tipo uma picada de mosquito, só que ela nunca melhora. Depois de um tempo coça mais e começa a sair um líquido incolor da ferida. Nessa hora acontece a epifania! Você olha para aquela merda e fala….q p%ˆ$&!! E dá uma espremida….sai mais suquinho incolor e uma coisa estranha q parece uma micro-rendinha preta….bom, isso é MERDA de larva de berne!!PQP!

É nojento, mas é legal!

Aí tem q matar a larva….a galera das antigas colocava toucinho na ferida pra larva subir até ele e ficar presa, não sei se funciona.

Todas as 5 que eu já tive e arranquei sem dor, foi utilizando a técnica do “sufocamento por esparadrapo” (ainda bem q o PETA não liga pras larvas de berne…nem imaginam que sejam os substitutos ecológicos das foquinhas do ártico!!). Para sufocar, coloque um quadrado de esparadrapo em cima da ferida por 24hs e pronto!

No dia seguinte vc tira o esparadrapo DEVAGAR e todo o tubo respiratório do bicho tá pra fora e ele tá morto dentro de você (olha a situação….isso é melhor que a que enfrentava anteriormente, ser comido vivo)….mas aí é só espremer igual espinha, por que com o bicho morto ele não tenta ficar grudado no tubo com a cinta de cerdas do seu corpo que evita que o bicho seja arrancado!! (Viu mãe…vc ia ficar puxando a larva e ela querendo ficar lá dentro até rasgar, morrer, ficar podre e dar mais trabalho pro Dr. Leonardo do que só abrir um rasgo na cabeça do Gustavo e ouvir umas verdades!hahaha)

Sai um pouco de pus, sangue e coco de berne depois, mas cura rápido! E quando ela tá viva, dá pra sentir picando de leve dentro do buraco e te comendo vivo, é dimais!!

Acabou

ps.: o interlocutor da conversinha de twitter foi @oatila que escreve coisas geniais aqui

Foto do berne aqui

Pra saber TUDO sobre berne e miíases fudidas, nojentas, fedidas e barulhentas AQUI nesse site muito foda!!

Escrevi isso em 2hs…é terapêutico.

Mióóóóólos!!

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E aí???? Eu comia…..e deixava ser comido!!! Vem ni mim Alice!!

Ahhh…..a zoologia, seus romantismos e relações amorosas.

Quem acredita que Deus criou tudo mesmo, acho que nem imagina a quantidade de modelos de fodelança que existem por aí, provavelmente Ele deve ser um cara bem cabeça aberta….oh wait!!

Por sorte o artigo que apresentarei hoje tem várias características dentro do escopo do Curiozoo: autores brasileiros e/ou residentes no Brasil, assunto curioso e novidade (esse saiu em novembro de 2012).

Sexo com defuntos!! Só de pensar nisso já vomito…e assim como um cachorro, como tudo de volta.

Não acredito!! Esse Lama vai falar de necrofilia nesse blog doente dele??

Sim, gente!! Falarei sobre necrofilia – o nome viado para sexo com defuntos – e melhor, necrofilia em SAPOS!! Pelo menos os malditos sapos sendo animais pecilotérmicos, muito provavelmente, não se importam de seu parceiro estar meio frio na hora H.

O artigo em questão é genial e se intitula lindamente: “Functional necrophilia: a profitable anuran reproductive strategy?” (clica aí pra baixá-lo…é open access).

Mas calma…antes comecemos falando um pouco sobre uma estratégia reprodutiva relativamente comum entre anfíbios anuros (sapos, pererecas e seus amiguinhos): a reprodução explosiva!!

Acalmem-se que não tem nada de sapo estourando, vísceras e fezes voando pra todo lado ou qualquer merda do tipo, não!!

Dentre os vertebrados terrestres, Lissamphibia (nome técnico para o grupo que compreende todas as formas viventes de anfíbios, a saber: salamandras, sapos e cecílias – esses últimos uns bichos muito loucos serpentiformes [googlem aí]) talvez seja o táxon onde existe a maior diversidade de formas reprodutivas. Tem sapo que incuba girino no tecido epitelial das costas, que engole ovos e deixa os girinos se desenvolverem dentro do estômago, que domina bromélias como berçário particular, que dominam poças no meio da mata e as defende com unhas e dentes (tipo banheira do Gugu) e zilhares de outros exemplos.

Agora vamos nos imaginar num ambiente inóspito, espetacular e com estações seca e úmida intensamente definidas como a maravilhosa Caatinga, por exemplo (você como brasileiro deve AMAR a caatinga…sim, isso é uma ordem!! É um bioma espetacular e endêmico da Ilha de Vera Cruz, aprendam a conhecer e apaixonar-se por nossas coisas, p@#%$!!! É o primeiro passo para querer preservá-las).

Em locais como esses geralmente ocorre esse tipo de reprodução espetacular em anuros.

Resumindo (amigos herpetólogos ajudem, complementem ou não):

Imagine vc sendo um sapo morando num lugar escroto desses (AMEM o lugar escroto!!). SEIS meses sem chuva e você é um maldito sapo. Muito dependente de água pra reprodução já que seu ridículo ovo não é amniótico. A vida é dura! Aí num belo dia chove pra cacete!! It’s the frog heaven, baby!!

Algumas espécies vêem a chuva e a formação de poças temporárias como uma oportunidade de ouro para garantir genes nas próximas gerações e é nessa hora que acontece um dos espetáculos mais maravilhosos da natureza…ORGIA DE SAPOS! Também geralmente, as espécies que se reproduzem explosivamente têm uma interessante proporção de machos vs. fêmeas….algo como os cursos de engenharia da Poli-USP: 3846 machos para cada fêmea, imaginem isso no mato!

Sapos machos atraem fêmeas por vocalizações características…e num comportamento explosivo TODOS os machos da população resolvem cantar ao mesmo tempo…é um barulho muitas vezes ensurdecedor, de você não conseguir conversar com outra pessoa do seu lado! Além disso quando os machos encontram uma fêmea eles imediatamente entram em amplexo e não soltam “nunca mais”, a não ser pra dar umas porradas nos outros que queiram tirar uma casquinha.

Agora imaginem uma festa na Poli-USP: 3846 machos em cima de uma fêmea…todos tentando entrar em amplexo e dar porrada nos outros. São descritas “bolas” de reprodução com dezenas de indivíduos, 99,99% deles machos…e uma coitada ali no meio sendo estuprada loucamente!

Eu já tive a oportunidade de ver isso no mato e digo, é um espetáculo mesmo. Foi na Amazônia, na margem direita do Rio Teles Pires e a espécie que vi era arborícola (vive em árvores). O frenesi de barulho era tanto que a uns 500 metros do foco reprodutivo eu pensei estar ouvindo um bando de papagaios de vocalização até então desconhecida para mim. Quando cheguei lá, tinha uma porrada de sapo, um atrás do outro se comendo loucamente – fiquei chocado, sim…um nerd ver uma orgia ao vivo, mesmo de sapos, é algo chocante. Obviamente peguei um para o herpetólogo que estava no campo junto comigo e o filho da puta (o sapo, não o herpetólogo) tentou entrar em amplexo com a minha mão…foi uma sensação meio bizarra tentar ser estuprado na mão por um sapo idiota! Me senti sujo e usado!

Tudo isso pra introduzir o assunto genial do artigo hein!? Vamo lá!

Muitas vezes, nessas bolas reprodutivas, a quantidade de machos é tão grande que a fêmea acaba morrendo afogada dentro da poça o que é ruim para a maioria das espécies com reprodução explosiva (fêmea morta=sem bebês)…mas não para a espécie amazônica Rhinella proboscidea que possui necrofilia funcional e evolutivamente se beneficiou desse método sexual bizarro.

Esqueçam o que vocês tem na cabeça sobre uma relação sexual clássica quando pensarem em sapos. Anfíbios anuros não possuem órgão reprodutivo intromitente nos machos (tradução: sapo não tem pau!). A fecundação ocorre externamente entre os oócitos femininos e espermatozóides masculinos, geralmente no momento do amplexo. Não sei de cabeça se existem variações sobre isso…tratando-se de anfíbios talvez elas existam, portanto herpetólogos que quiserem complementar algo, o espaço está aberto!

No presente trabalho foram feitas várias observações de fêmeas mortas em lugares que ocorreram batalhas sexuais explosivas e 100% dos animais coletados e dissecados (n=15) não possuíam oócitos dentro das cavidades abdominais. Pelo menos cinco eventos necrofílicos foram observados em campo, onde machos em amplexo inguinal com fêmeas mortas pressionavam o abdome de suas zombie queens, fazendo com que oócitos fossem expelidos pelo corpo frio e sem vida, mas gostoso, de suas amantes.

Como nessa espécie a fecundação é externa e os oócitos são expelidos em forma de cordão gelatinoso, tal evento é facilitado. Quatro desovas de fêmeas mortas bolinadas por machos safados foram levadas ao laboratório, onde se confirmou que ocorreram fertilizações, ou seja, comer as defuntas vale a pena!!

Os autores discutem que isso configura uma vantagem evolutiva, já que a competição macho-macho nessas explosões reprodutivas é tamanha e tão exaustiva, que muito provavelmente eles não conseguiriam batalhar por fêmeas vivas no mesmo evento após a morte da primeira opção, inclusive reportam que observaram fêmeas sobreviventes ao frenesi, mas que não existe a certeza se as mesmas sobrevivem para um sexo tão selvagem mais uma vez. Kinky nature.

Isso é lindo, é curioso, é zoologia e alguém deve mandar esse paper pro Feliciano!!!

Todos os 5 autores do trabalho estão fixados em instituições brasileiras: INPA, UFMT e UFAM. E com isso eles reportam o primeiro caso de necrofilia em anfíbios com confirmação de sucesso fecundativo.

Meus sinceros e empolgados parabéns a todos os envolvidos!!

Zoologia é f@#$!

Para saber mais sobre fodelança e eventos sociais de anuros: AQUI

Alice zumbi gostosa DAQUI