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Cocoricó.

Macho-alfa e uma de suas garotas em floresta no sudeste asiático

AE!

Mais uma vez por obra do acaso, estou aqui escrevendo um novo post.

Mas ele já está pronto….

Recebi hoje um e-mail de uma jornalista de uma revista de divulgação cientifica de grande circulação, para ajudá-la com uma “pergunta de leitor”. É super comum para quem está trabalhando na área acadêmica ter contato com esse pessoal e eu particularmente gosto de colaborar quando posso.

Sempre são coisinhas simples e bem legais de responder, mas hoje foi mais legal. Ela me mandou uma pergunta interessantíssima:

Eu estava a madrugar e eis que ouço um galo cantar próximo às 2h. Gostaria de saber o que poderia levar a esse comportamento, já que ele é uma ave quase sem qualquer tipo de defesa e estaria entregando sua posição a animais caçadores noturnos que o predariam” Leitor misterioso

Eu respondi, mas como tinha estudado isso pra dar uma aula esse semestre numa disciplina aqui da pós-graduação, e tava bem fresco o conhecimento enciclopédico, escrevi demais.

Sei que pra entrar na revista terão que cortar bastante coisa, mas fiquem aí com a resposta na íntegra:

“Antes de responder especificamente sobre o assunto da pergunta, seria interessante sabermos um pouco da história e sobre qual identidade biológica estamos falando ao tratarmos de galos e galinhas. Muitas espécies de Galliformes (ordem de aves onde estão presentes os faisões, galos, galinhas, jacus, jacutingas, urus, codornas, etc) tem grande importância para várias populações humanas, desde culturais (cultos religiosos, esporte, etc) até o óbvio aporte proteico (carne e/ou ovos). E existem basicamente duas maneiras comuns de se obter proteína de Galliformes que são exaustivamente utilizadas por homens no mundo todo: caça ou domesticação. O histórico da domesticação do ancestral do animal que hoje pode ser considerado galo e galinha-domésticos (e todas suas variações) é bastante antigo. Este talvez seja o animal que teve o maior impacto em vários aspectos da vida humana. Existem fortes evidências de que exemplares da espécie Gallus gallus, hoje ainda encontrada em seu estado natural em florestas do sudeste asiático tenham sido domesticadas por povos na Índia antiga (a mais de 3.000 AC), que primeiro buscavam fonte de carne e ovos, mas depois descobriram na agressividade intrínseca de machos da espécie, uma boa fonte de diversão (apesar de extremamente cruel, rinhas de briga-de-galo são especialmente populares na Ásia). Com o advento das grandes navegações (existem relatos de domesticação de galinhas na Europa já em 1500AC), praticamente todos os navios levavam galinhas domésticas nas viagens, dando o impulso final para que este animal fosse utilizado por praticamente todas as civilizações. Com esse breve histórico podemos responder à ótima pergunta do leitor. Como disse anteriormente, esta espécie vive originalmente em matas e alguns outros ambientes no sudeste asiático, e possuem hábitos gregários, ou seja, são encontrados em grupos familiares com alguns indivíduos. Uma coisa essencial para a boa manutenção de grupos familiares nas matas é óbvia: a comunicação entre os pares. A comunicação entre indivíduos de aves é uma disciplina extensa em ornitologia e no caso das vocalizações dos Gallus gallus selvagens no sudeste asiático as manifestações sonoras estão ligadas a defesa territorial, prelúdio ao acasalamento, dominância sobre aves subordinadas, manutenção da coesão do grupo após a alimentação, etc. Geralmente os grupos possuem um macho-alfa que é responsável por praticamente tudo isso, e não é estranho que o mesmo comportamento seja visto nas fazendas e sítios com galinhas. Sempre há um macho dominante que vive reforçando a idéia de que quem manda no local é ele (estufa o peito, bate as asas no lugar só pra fazer barulho, dá uns “chega-pra-lás” em machos jovens subordinados, etc). O canto madrugador é um exemplo desse caráter ancestral ainda expresso nos galos domésticos, geralmente, antes do amanhecer o galo dominante sobe em seu poleiro preferido e grita para outros machos da espécie que o território é dele….e caso alguém invada, vai ter briga, e briga feia. Existe o problema de algum predador aprender a ouvir o canto territorial da espécie e atacar o grupo? Sim, claramente! Mas a natureza é mesmo cruel, e os galos e galinhas evoluíram por milhares de anos até chegar a esse patamar, que deu certo! A espécie está por aí, firme e forte. Devem haver perdas de galos dominantes e/ou outros indivíduos do grupo pela atração do canto? Sim, mas o benefício da manutenção de um grupo familiar coeso e fértil parece valer a pena. E apesar de pensarmos que galos e galinhas possam ser indefesos, a coisa não é bem assim….machos são extremamente agressivos e defenderão o grupo familiar com unhas, bicos e esporões. Pode até ser uma luta injusta com um gato-selvagem de médio porte, mas o galo não se entrega fácil.”

Zoologia é f%ˆ&!! E História também!

Da próxima vez que for ao sítio do seu tio….preste atenção nas galinhas!!!

Foto dos bichos DAQUI

Cocoricó (sim, ainda sou o macho-alfa desse blog)